O diagnóstico de câncer de próstata chegou. E junto com ele veio uma avalanche de sentimentos: medo, confusão, dúvidas sobre o que fazer, informações contraditórias da internet. E muitas vezes uma crença que não é verdadeira — a de que esse diagnóstico é uma sentença.
Na maioria dos casos, não é.
O câncer de próstata é um dos tumores com melhor prognóstico da oncologia, especialmente quando diagnosticado cedo. O que vou explicar aqui é por que o tratamento cirúrgico existe, quando ele é a melhor escolha, e o que a abordagem robótica muda na prática para o paciente.
Esse é um dos pontos mais importantes — e menos conhecidos.
O câncer de próstata tem comportamentos muito diferentes. Alguns crescem muito lentamente, ficam confinados à glândula por anos sem se espalhar e têm baixo risco de causar dano. Para esses casos, a conduta recomendada pelas principais diretrizes mundiais (EAU, AUA, NCCN) é a vigilância ativa — um acompanhamento rigoroso com PSA periódico, toque retal, ressonância magnética e biópsia de confirmação.
A ideia é simples: tratar quando — e somente se — houver sinais de que o tumor está crescendo ou se tornando mais agressivo. Enquanto isso não acontece, evita-se o custo de um tratamento desnecessário.
Um estudo publicado no New England Journal of Medicine em 2023, com 15 anos de acompanhamento (o ProtecT trial), confirmou que para tumores de baixo risco a mortalidade por câncer de próstata é equivalente entre vigilância ativa e cirurgia imediata.
Então nem todo diagnóstico leva à mesa de operação.
A cirurgia — chamada de prostatectomia radical — remove a próstata completamente. É a principal opção de tratamento com intenção curativa para homens com:
Para tumores de risco intermediário ou alto — que têm maior chance de crescer e se espalhar — o tratamento não pode ser adiado indefinidamente. Aí a cirurgia ou a radioterapia entram em cena como opções curativas principais.
A escolha entre cirurgia e radioterapia é uma conversa que precisa acontecer com o especialista, levando em conta o estadiamento específico do tumor, a idade, as condições clínicas e as preferências do paciente.
A cirurgia de próstata pode ser feita de três formas: aberta (com corte grande no abdômen), laparoscópica ou robótica.
Nos últimos 15 anos, a robótica se tornou dominante. Nos Estados Unidos, mais de 85% das prostatectomias radicais são feitas por essa via. E não é modismo — é resultado.
O motivo central é anatômico.
A próstata fica dentro da pelve masculina, rodeada por estruturas delicadas: o reto, a bexiga, os vasos sanguíneos da região e — muito importante — os feixes neurovasculares responsáveis pela ereção. Esses nervos correm lateralmente à próstata, em estruturas finíssimas que precisam ser identificadas e preservadas.
Na cirurgia aberta, o cirurgião opera com visão direta mas limitada, em um espaço apertado, sem ampliação. Na robótica, a câmera 3D mostra essa anatomia com ampliação de 10 vezes, com profundidade de campo real. Os instrumentos articulados conseguem fazer movimentos que a mão humana não consegue em um espaço tão pequeno.
Isso faz diferença concreta nos dois resultados que mais importam para o paciente depois da cirurgia: o controle urinário e a função erétil.
Vou ser direto, porque essa conversa precisa acontecer antes da decisão.
Controle urinário:
Quase todos os pacientes têm algum grau de incontinência urinária logo após a cirurgia. Isso é esperado — o mecanismo de controle urinário é afetado pelo procedimento e precisa se recuperar.
A boa notícia: a grande maioria recupera o controle. Estudos mostram que 85 a 90% dos pacientes têm continência social completa (sem precisar de absorvente) em 12 meses. A fisioterapia do assoalho pélvico — os exercícios de Kegel — acelera muito esse processo. Começar antes da cirurgia e continuar depois faz diferença real. (Ficarra et al., European Urology, 2012)
Função erétil:
Esse é o desfecho mais variável — e o que mais gera ansiedade.
A recuperação da ereção depende principalmente de três fatores: a função erétil que o paciente tinha antes da cirurgia, a idade, e se foi possível preservar os feixes nervosos durante o procedimento. Quanto mais jovem, melhor a função antes e maior a preservação dos nervos — maiores as chances de recuperação.
Em cirurgias com preservação bilateral dos nervos, taxas de recuperação da função erétil de 70 a 80% são relatadas em centros de referência. Mas é importante entender que essa recuperação é progressiva — pode levar de 6 meses a 2 anos, e há recursos que ajudam nesse processo (medicamentos, dispositivos de vácuo, reabilitação erétil).
Antes da cirurgia, discuto isso abertamente com cada paciente. Não existe decisão bem tomada sem essa conversa.
Quando a peça retirada na cirurgia vai para análise laboratorial, o patologista verifica se há células tumorais na borda do que foi removido. Se houver — o que se chama de margem positiva — significa que pode ter ficado algum tumor no paciente.
Margem positiva não é sinônimo de falha da cirurgia, e nem sempre requer tratamento imediato adicional. Mas aumenta o risco de que o PSA suba depois da cirurgia — o que chamamos de recidiva bioquímica — e pode indicar a necessidade de radioterapia complementar.
A taxa de margem positiva depende principalmente do estadiamento do tumor (quanto mais avançado localmente, maior o risco) e da experiência do cirurgião. A robótica, por si só, não elimina esse risco — mas a melhor visualização e o controle técnico que ela oferece ajudam a minimizá-lo em cirurgiões experientes.
O câncer de próstata localizado tem tratamento eficaz. Para muitos pacientes, é curável. A cirurgia robótica representa o que há de mais avançado tecnicamente para realizar essa cirurgia com o menor impacto possível sobre o corpo e com as melhores chances de preservar a qualidade de vida depois.
Mas a cirurgia certa é a que foi bem indicada, bem planejada e bem executada. Tecnologia e experiência do cirurgião andam juntas.
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